Uma ONG da Região Central do Estado de São Paulo Dedicada a Proteger uma Microbacia Urbana

Por recomendação da ECO 92, Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente, realizada no Rio de Janeiro, a Organização das Nações Unida (ONU) criou em 1993 o Dia Mundial da Água que vem sendo comemorado na maioria das nações desde 1933.

Aproveito a data para divulgar uma experiência socioambiental inovadora e bem-sucedida que acontece na cidade de São Carlos, Estado de São Paulo.

Tudo começou quando um professor do curso de pedagogia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Prof. Benjamim Matiazzi, morador do Parque Santa Mara naquela cidade, logo após se aposentar resolveu usar seu tempo para cuidar de um bosque urbano (Bosque Santa Mara) existente no bairro e vítima de vandalismos, mau uso, remoção de húmus, ‘limpezas’ do sub-bosque, etc. A partir de sua atitude vários outros moradores e moradoras que também participavam da Associação de Moradores do Parque Sana Marta, passaram a apoiar a iniciativa.

Cobrar e ajudar a Administração Municipal na conservação do bosque urbano, realizar atividades culturais neste ambiente natural, orientar os  frequentadores do bosque e os moradores próximos foram atividades que garantiram que o único fragmento remanescente  urbano de Mata Atlântica existente na cidade de São Carlos, fosse preservado. E a partir da preservação desse fragmento florestal remanescente, brotou a iniciativa de recuperar uma área de preservação permanente totalmente degradada e formar o Bosque Cambuí, nas margens do córrego Cambuí, afluente do córrego Santa Maria do Leme.

Essa experiência fez com que membros de associações de moradores de bairros vizinhos como AMOR – Associação de Moradores dos Parques e Jardins; Associação dos Moradores do Acapulco; Associação de Moradores do Residencial Parati, ficassem estimulados a também realizarem ações de caráter ambiental (plantios de árvores, limpeza de áreas verdes para recolhimento de lixos, etc) em seus bairros.

A microbacia do córrego Sana Maria do Leme e sua localização ¹

As conversas e articulações entre os membros dessas quatro associações evoluíram para criação de uma entidade cujo objeto não é apenas cuidar melhor do seu bairro, mas cuidar de toda microbacia hidrográfica onde estes bairros estão inseridos: a microbacia do córrego Santa Maria do Leme.

A percepção de que a qualidade de vida nesses bairros – todos próximos à foz do córrego Santa Maria do Leme junto ao rio Monjolinho, região já sujeita à inundações – só seria possível através de efetivos cuidados e, principalmente, de um planejamento urbano adequado para a ocupação dos cerca de 2/3 da área da microbacia ainda não-urbanizada, foi um fator decisivo na motivação dos fundadores da Veredas: Caminho das Nascentes. Também contribuiu a vontade dos moradores e moradoras, de fazer algo de concreto para melhoria da região onde moram, colaborando dessa forma com todo o planeta.

Grandes Conquistas Ambientais

Logotipo da ONG Veredas: Caminho das Nascentes

São muitas as realizações da Associação Veredas, especialmente na área de educação ambiental junto às escolas da região, possibilitadas através de parcerias com várias instituições como Centro de Divulgação Científico Cultural da Universidade de São Paulo (CDCC); Serviço Social do Comércio de São Carlos (SESC-SC), Embrapa Instrumentação Agropecuária, etc.

 

Mas, nesta ocasião, cabe destacar duas conquistas a um tempo emblemáticas, simbólicas e muito concretas:

  • A garantia de preservação de uma nascente do córrego Cambuí que não constava nos mapas de hidrografia do Município e que no processo de licenciamento para loteamento de área onde ela está localizada, não havia sido identificada nem pelos órgãos de licenciamento do Estado de São Paulo;
  • Na revisão do Plano Diretor Estratégico do Município de São Carlos, aprovada em dezembro do ano passado, a microbacia do córrego Santa Maria do Leme ganhou uma faixa de proteção de trinta metros (30m) além dos trinta metros (30m) de área preservação permanentes garantidos pelo Código Florestal federal. Esta faixa será necessariamente permeável, aumentando a capacidade de absorção de água pluvial, podendo ser usada para trilhas e recreação, ações que visam a proteção do corpo d’água.

São conquistas impensáveis há cerca de uma década e só foram possíveis graças ao trabalho organizado e bem articulado de convencimento de formadores de opinião da sociedade são-carlense, através de muitas palestras e muito diálogo.

Mas resta ainda um sonho distante, para alguns utópico: o córrego Santa Maria do Leme já teve suas águas, durante muitas décadas, captadas (na antiga “Captação do Galdino” , cujas dependências foram cedidas para a atual sede da “AMOR”) para abastecimento público de água potável. À época da paralisação da captação de suas águas, 1997, elas contribuíam com 5% do abastecimento público e, por estar muito próxima da Estação de Tratamento de Água, eram as águas mais baratas do sistema de abastecimento. O aumento na frequência em que a “Captação do Galdino” tinha suas bombas de captação paralisadas por ser área de inundação; o crescimento urbano sem proteção  do córrego e a sua consequente degradação por disposição direta de lixo, de esgoto e indireta pelo arreamento por água de chuvas e o risco de contaminação de suas águas por indústria de tratamento de madeiras à montante, motivaram, infelizmente, o cancelamento dessa captação .

Para 2017, a ONU estabeleceu que o tema prioritário a ser tratado no Dia Mundial da Água seja o “Águas Residuais”.

Garantir a limpeza e pureza das águas do córrego Santa Maria do Leme (e de todas as águas continentais e oceânicas) é um dever moral e sem fim a que nós humanos temos que estar imbuídos. Os motivos que levaram à paralisação da Captação do Galdino, deveriam e devem ser encarados como metas para efetivo e seguro tratamento de águas residuais: a) de eventuais indústrias de qualquer natureza que estejam na área de sua microbacia; b) das águas pluviais carreadas para o córrego que também devem ser tratadas antes de chegar ao córrego; c) do esgoto doméstico cujas tubulações passam próximas ao córrego, que devem ser suficientemente seguros e terem eficazes sistema de controle para que não poluam as águas do córrego.

Quem sabe um dia ainda sejamos educados e civilizados o suficientes para podermos morar ao lado do córrego cuja água usamos para beber, aliás, como acontecia há cerca de uns 100 anos atrás.

A experiência da Associação Veredas Caminho das Nascentes merece atenção e ser, adequadamente, reproduzida em outras microbacias urbanas em São Carlos e outras cidades, constituindo, aliás, uma ótima ‘vereda’ para uma urbanização sustentável; um caminho para educação e para organização socioambiental de nossas comunidades humanas e naturais.

Paulo José Penalva Mancini, São Carlos, 22 de março de 2017

  1. Imagem reproduzido no trabalho: “Ocupação Urbana e Drenagem de Águas Pluviais na Microbacia Hidrográfica do Córrego Santa Maria do Leme, São Carlos, SP: Uma Abordagem na Perspectiva da Infraestrutura Verde”, elaborado Por Alexandre da Silva Faustino, orientado pelo Prof. Dr. Luiz Eduardo Moschini; DCAm, UFSCar.  

Breve Relação de Atividades Realizadas pela Associação Veredas: Caminho das Nascentes

(elaborado pela Diretoria da Veredas: Caminho das Nascentes)

Principais trabalhos da Veredas: foco em cinco tópicos, sempre ligados a área de abrangência da Veredas que é a Microbacia do Córrego do Santa Maria do Leme

  • Participação na elaboração de políticas públicas, especialmente: na construção da revisão do Plano Diretor, atuando em órgãos do Poder Executivo como COMDEMA , COMDUSC, e Nucleio Gestor Compartilhado para Revisão do Plano Diretor, bem como participar de reuniões com  o Ministério Público na denúncia de desvios, participação em audiências públicas da Câmara Municipal.
  • Interface com instituições de ensino superiore de pesquisa: 
    • USP / UFSCar no projeto de uma nova urbanidade de uso e ocupação do solo, incluindo uma disciplina de extensão para a comunidade e suporte da Profa. Dra. Luciana Schenk, Profa. Dra. Renata Bovo Peres e dos mestrandos Alexandre Faustino e Nicolas Tao. 
    • Interface com o DCAm/USFCar na identificação de todos trabalhos acadêmicos realizados pelas instituições de ensino superior na Microbacia do Santa Maria do Leme, com Prof. Dra. Frederico Hanai.
    • interface com alunos do DCAm/UFSCar e UNESP na criação do evento “Ambiente-se nos Bosques”. 
    • interface com alunos da Eng Ambiental da USP no suporte para análise de projetos imobiliários na Microbacia em questão;
    • interface com o Instituto Internacional de Ecologia, num trabalho de análise da qualidade de água, atividades realizadas em 2012 e 2014, sob orientação de Leandro Campanelli.
  • divulgação, conscientização e interface com escolas do ensino Fundamental e Médio, localizadas no entorno da Microbacia, sobre conceitos relativos a questões ambientais e de sustentabilidade. Visita a escolas, compartilhamento de conteudo, visita das crianças aos bosques, concurso de redação, pintura e fotografia. Neste contexto há parcerias com o CDCC / USP e SENAC. Exemplo significativo: o concurso do logomarca da Veredas.
  • visitas monitoradas aos Bosques Santa Marta e Acapulco, a qualquer momento quando agendadas previamente pelas escolas. Estima-se que o programa de visitas, desde o seu começo nos anos 90, já tenha dado a oportunidade de mais 7.000 crianças conhecerem esses espaços, sempre sob a coordenação do Prof. Mattiazzi.
  • Seminários de divulgação de conteúdos e espaço para debates, referentes a Microbacia, em parceria com Embrapa e SESC

*

*