“Um palácio para educação”

A entrada monumental ‘para a ascensão ao conhecimento’ da antiga Escola Normal, hoje a E.E.Dr. Álvaro Guião, cujo edifício teve sua inauguração em novembro de 1916

“UM PALÁCIO PARA EDUCAÇÃO”

Arquiteta responsável pela restauração da antiga Escola Normal (E.E. Dr. Álvaro Guião) lembra o centenário da inauguração de um dos maiores patrimônios arquitetônicos de São Carlos

Em 18 de novembro de 1916 deu-se, em pomposa cerimônia que contou até mesmo com a presença do então Presidente (atualmente governador) do Estado de São Paulo, Altino Arantes, a inauguração das edificações especialmente projetadas e construídas para abrigar uma das primeiras escolas para formação de professores do interior do Estado de São Paulo, a Escola Normal, depois Instituto de Educação e, hoje, nossa Escola Estadual Dr. Álvaro Guião.

Em palestra realizada no dia 08 de novembro, no requintado anfiteatro da antiga Escola Normal, a arquiteta Anália Amorim, professora das Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e da Escola das Cidades, lembrou de um de seus primeiros trabalhos profissionais, no ano de 1986 (30 anos portanto), que foi exatamente o de elaborar o projeto para restauração do “Monumento na avenida São Carlos”, como o qualificou o historiador Dr. Aílton Pereira Morila, atualmente professor na UFES, em excelente artigo publicado na Revista Histebr online em 2005, no qual contextualiza, à níveis local e nacional, a criação da Escola Normal dentro da República Velha, onde, economicamente, predominou e dominou o café.

A professora Anália Amorim abriu as comemorações relativas ao centenário desse patrimônio arquitetônico tomado pelo Conselho Estadual de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Paisagístico de São Carlos, convidada pela Comissão criada pela E.E.Dr. Álvaro Guião, para programar as comemorações deste centenário, e pelo Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP (IAU-USP) e com a colaboração da Fundação Pró-Memória da Prefeitura Municipal de São Carlos.

Da palestra da professora Anália Amorim quero destacar uns três ou quatro pontos:

  • Fez-me lembrar – e ver através das fotografias que mostrou quando fez o trabalho de prospecção para elaborar o projeto de restauro – que, no período em ali estudei, final dos anos sessenta e início dos anos 70 do século XX, que nossa escola era muito mais feia que hoje, ainda que mantivesse sua grandiosidade. Mas não existiam os adornos e afrescos originais que tinham sumido por camadas e camadas de pinturas posteriores. Predominava o cinza nas paredes, em dois ou três tons;
  • É mesmo notável a recuperação da luminosidade que a escola resplandece após a restauração em tons de amarelo, que realmente remete às ‘luzes’ do ‘Iluminismo’ e racionalismo que alimentaram os ideais republicanos;
  • As escadas…. Ah!, as escadas são elementos realmente notáveis na edificação.
    Além da função de acesso vertical, elas funcionam como elemento estético e local de convivência – na escadaria principal de aceso ao majestoso saguão tem um patamar, onde as pessoas, ao se cruzarem (quem desce, quem sobe) podem parar para uma conversa. Através dela se ‘conversa’ com a cidade; se ‘observa’ a cidade de modo privilegiado e transmite o sentimento de grandeza e magnificência que o saber, o conhecimento deve trazer.
  • Ainda que grande e magnífica no seu exterior, em seu interior (que também é suntuoso) tudo foi projetado para o encontro entre seres humanos, para convivência e aprendizagem. A iluminação natural, os vitrais para quebra do excesso de luz, o arejamento das salas de aula que proporcionam conforto térmico que – creio eu – só mesmo o aquecimento global poderá agravar; a acústica perfeita do anfiteatro, que dispensa alto-falantes inexistentes à época;
  • Emocionou-me a Professora Anália Amorim cumprimentar a Direção mas, principalmente, os estudantes pela conservação da escola, sem nenhuma pichação, rasuras. Não é fácil manter bonito e bem conservado um edifício de porte palaciano, com a frequência diária de 1800 estudantes se não houver efetiva colaboração deles. E com os parcos recursos recebidos para tanto: entre os critérios da Secretaria de Educação para distribuição de recursos para manutenção da escola, não está o de relevância patrimonial histórica e arquitetônica!!! Predomina apenas o critério de quantidade de estudantes. Imaginem o esforço e peripécias dos gestores da Escola para garantir sua integridade!

Já no final da palestra da Profª. Anália, tocou a sirene anunciando intervalo e eu lembrei-me que essa sirene – que eu sempre achei horrível – é muito semelhante às sirenes (ou apitos) das fábricas que também no início do século XX, como as escolas públicas, anunciavam o progresso, as grandes mudanças civilizatórias que o sonho humano da República prometia.

No início da República construíam verdadeiros palácios para educação pública…E hoje? E no futuro com os recursos para educação congelados pela PEC-55, como querem alguns deputados e senadores?

2 Comments

  1. Paulo Gilberto Vessani said:

    Sinto muito orgulho de ter estudado neste verdadeiro “Palácio da Educação”.
    Foi nos idos de 1963 a 1966, época esta em que “invadiamos” a escola diariamente, sequiosos por uma educação exemplar e não para depredar ou impedir que outros alunos tenham o acesso garantido ao seu interior da. Protestar contra a PEC-55, influenciados por grupos de desinformados e arruaçeiros, que profetizam fatos catastróficos para a educação.
    Época em que os professores transmitiam, não só um ensinamento de alto nível e disciplina, mas também respeito e admiração.
    Hoje sou um engenheiro mecânico já aposentado, após 44 anos de trabalho em algumas empresas de renome no Brasil e no exterior, com toda minha base técnica e disciplinar adquirida neste verdadeiro “Templo de Sabedoria”.
    Obrigado I.E.A.G por tudo que proporcionastes na época mais importante de minha vida.

  2. Nicete Campos said:

    Estudei nesse “Palácio da Educação”. Meus filhos estudaram lá. Estou escrevendo um livro (romance), onde cito umas passagens minhas vividas lá. Ajudou na minha formação formal e informal. É o prédio mais lindo da cidade!

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