Água, o ouro azul do século 21

ÁGUA, O OURO AZUL

Silvana Menezes

A água, também chamada de ouro azul, é um recurso natural fundamental para todos os seres vivos. O uso sustentável deve ser incorporado pela população, como forma de garantir sua disponibilidade. Apesar de ser recurso renovável, está cada vez mais escasso. A escassez compromete o abastecimento de milhões de pessoas.

No Brasil, país de dimensões continentais, com muitas bacias hidrográficas berço de rios extensos e perenes, sempre manteve-se o pensamento de que a água é abundante e inesgotável, com exceção para a região semi-árida do Nordeste que amarga com as secas há décadas. E contrapartida, a região Centro-Sul, beneficiada pela localização geográfica e com maiores recursos sociais e tecnológicos, jamais poderia supor-se num cenário de escassez e de racionamento de água que agora faz parte da rotina de milhões de pessoas.

A água no mundo é abundante, mas 97% dela são água do mar e apenas 3% são água doce ou própria para o consumo humano e industrial. De acordo com o Serviço Geológico do Brasil, dos 3% de água doce, mais da metade (1,75% do total) é congelada, localizada nos polos, e outra parte (1,243% do total) é água subterrânea, cujo aproveitamento demanda mais recursos financeiros.

Segundo o Serviço Geológico, a parcela mínima de 0,007% de água boa e facilmente aproveitável vem sendo poluída e desperdiçada pela humanidade, sendo que metade dos rios do mundo já estão poluídos por esgotos, agrotóxicos ou lixo industrial.

Com o foco na sustentabilidade e preservação, a Agência UN-Water da Organização das Nações Unidas (ONU) apresentou o tema para o Dia Mundial da Água de 2015 “Água e Desenvolvimento Sustentável” que pautou as discussões do setor de recursos hídricos em todo o mundo. A UN-Water coordena ações em assuntos sobre água doce e saneamento.

As discussões internacionais sobre os recursos hídricos vêm sendo realizadas em fóruns mundiais que ocorrem a cada três anos. O próximo Fórum Mundial da Água está previsto para 2018, em duas cidades da Coréia do Sul, Daegu e Gyeongbuk, com o tema “Água para Nosso Futuro”. O objetivo é destacar a temática dos recursos hídricos na agenda global e reunir organizações internacionais, políticos, representantes da sociedade civil, cientistas e profissionais do setor, conforme informações da Agência Nacional de Águas (ANA).

Escassez no mundo – Dados do CPRM-Serviços Geológicos do Brasil apontam os problemas vividos por milhões de pessoas no mundo devido à escassez de água. Atualmente, 29 países têm problemas com a falta de água. A escassez atinge 460 milhões de pessoas e dezenas de milhões delas vivem com menos de cinco litros de água por dia.

Segundo o estudo, “Corrupção Global 2008: Corrupção no setor de Água”, elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e pela ONG Transparência Internacional, mais de um bilhão de pessoas não têm acesso à água potável e 2,4 bilhões vivem sem saneamento básico. O mesmo estudo revela que essa situação se deve mais à falha de governança do que à escassez de recursos hídricos.

Uma projeção feita por cientistas  indica que, em 2025, 2,43 bilhões de pessoas (dois de cada três habitantes do planeta) serão afetadas de alguma forma pela escassez, passando sede ou contraindo doenças como cólera e amebíase, provocadas pela má qualidade da água.

De acordo com dados divulgados no site do CPRM, a falta de água afeta o Oriente Médio, a China, a Índia e o norte da África A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que, até 2050, 50 países enfrentarão crise no abastecimento.

A escassez do recurso também coloca em risco a produção de alimentos. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), 70% da água de superfície e subterrânea é usada na agricultura. Em 2003, a ONU declarou o Ano Internacional da Água Potável para conscientizar a população sobre sua importância e a necessidade de utilizá-la de forma adequada.

BRASIL – No Brasil, apesar da disponibilidade de água também há escassez. Cerca de 12% da água doce superficial da Terra estão no Brasil. No entanto, a distribuição entre as regiões é bastante desigual. A região Norte, com 7% da população, possui 68% da água do Brasil; enquanto o Nordeste, com 29% da população, possui 3%; e o Sudeste, com 43% da população, conta com apenas 6%. Só a Amazônia tem 80% da água existente no Brasil.

Outros fatores que agravam ainda mais o problema de escassez de água são o desmatamento, a não preservação das nascentes, a poluição das águas superficiais e subterrâneas e o desperdício. Os recursos hídricos poluídos e não tratados comprometem a saúde da população brasileira: cerca de 45% não têm acesso a serviços de água tratada e 96 milhões de pessoas vivem sem esgoto sanitário. Esses dados são do CPRM.

O desperdício também contribui com a escassez de água. Os brasileiros ainda desperdiçam 40% da água tratada fornecida aos usuários. Cada pessoa necessita de 40 litros de água por dia, mas os brasileiros consomem 200 litros (e os norte-americanos, mais de 500). Atitudes nada sustentáveis e que vão na contra-mão da preservação e da conservação desse recurso.

 

Aqüífero Guarani, uma grande reserva subterrânea – Uma alternativa à escassez das águas superficiais é a captação de águas subterrâneas de aquíferos. O Aqüífero Guarani, maior manancial de água doce subterrânea transfronteiriço do mundo, está localizado na região centro-leste da América do Sul, ocupando uma área de 1,2 milhões de Km², estendendo-se pelo Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina. Sua maior ocorrência se dá em território brasileiro (2/3 da área total), abrangendo os Estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Essa reserva de água subterrânea é uma estratégia importante para o abastecimento da população, para o desenvolvimento das atividades econômicas e do lazer. As águas em geral são de boa qualidade para o abastecimento público e outros usos, sendo que em sua porção confinada, os poços tem cerca de 1.500 m de profundidade e podem produzir vazões superiores a 700 m³/h. (Fonte DAAE de Araraquara).

Mesmo constituindo fonte importante como alternativa de abastecimento, estudos domonstram que no Guarani, as áreas de recarga que coincidem com importantes áreas agrícolas brasileiras, herbicidas têm sido usados intensamente com probabilidade de sérios problemas de poluição nesses locais, comprometendo a qualidade de suas águas subterrâneas.

Atitudes sustentáveis para evitar o desperdício de água – localizar e consertar regularmente os vazamentos em torneiras e vasos sanitários; reutilizar a água da chuva na limpeza de ambientes; Reduzir o consumo de água nas áreas externas; usar dispositivos de baixo fluxo nas torneiras e vasos sanitários; ao construir ou reformar, é necessário fazer a instalação de dispositivos, evitando o uso de equipamentos de fluxo contínuo. A proposta prevê uma educação continuada alertando sobre a importância da participação de todos contra o desperdício de água. (Fonte: Projeto Inteligente, Programa CPRM Sustentável/ Serviços Geológicos do Brasil).

 

* Silvana Menezes é professora de Geografia, jornalista e tem MBA em Gestão Ambiental e Sustentabilidade pela UFSCar.

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